Carta aos Filhos

Esta não será uma carta onde vos escreverei algo que nunca vos tenha dito, ou que sinta necessidade de o fazer apenas por este intermédio. É, se preferirem, uma declaração de amor de um filho para o pai, e que espero um dia possa servir para que compreendam o vosso, meu também, papel nesta relação de hereditariedade.
Por muito que me custasse entender, o meu pai nunca foi o meu melhor amigo. Foi meu pai com todas as contrariedades que esse estatuto lhe confere. O melhor amigo não contraria, nem impõe regras que julga serem fundamentais para a construção da nossa personalidade. Para todos os efeitos crescemos com aquela ideia, a partir de determinada idade, que sabemos tudo, que os “cotas” apenas representam um obstáculo às nossas vontades, e que estão ultrapassados, incapazes de perceber a linguagem em código que usamos na esperança que não entendam o que estamos a dizer.
Os tempos mudam a correr todavia acrescentam sabedoria. Agora como pai, reconheço que o mais novo, o Pedro, beneficiou do que não tive com o primeiro, segundo e terceiro filhos. A experiência, o mundo que se ganha à medida que foram aparecendo na minha vida, e em circunstâncias tão diversificadas que me tornaram mais paciente, tolerante e sabedor. A preciosa ajuda da mãe facilita imenso a tarefa, pois como sabem, as minhas ausências físicas são inúmeras e em tantos momentos me tem substituído com uma dose extra de amor.
Queridos filhos, como sabem o avô atravessa neste momento uma nova etapa da sua vida, rodeado de carinho, depois de lhe ter atendido sempre a sua vontade teimosa em querer viver sozinho, sem apoio. Agora que entende os benefícios desta realidade, ainda tateando diariamente esta disciplina colectiva, sorri matreiro para mim dando o braço a torcer pela qualidade que passou a dispor. Um dia se necessitar da vossa ajuda anseio que tenham por mim o mesmo respeito pela individualidade, o gosto e o desejo, que pacientemente demonstrei pelo avô. E tantas vezes era óbvio que já não podia estar sozinho. Na hora de determinar qual o melhor destino a dar-me, no mínimo, ouçam-me. Tenham em consideração o que penso, com tanto carinho quanto aquele que sinto por vocês.

Queridos filhos, amo-vos muito.

Jorge Gabriel

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(artigo publicado na revista TV Guia)

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