Em jeito de premonição dos dias que se seguiram, com vários exemplos de violência gratuita nas ruas de Coimbra e Lisboa, o neuro-cientista António Damásio advertiu no lançamento do seu mais recente livro, na terça feira passada, que é preciso educarmo-nos para contrariar os nossos instintos mais básicos, que nos impelem a pensar primeiro na nossa sobrevivência.

O nosso honroso cientista foi mais longe quando afirmou: “o que é quero é proteger-me a mim, aos meus e à minha família. E os outros que se tramem.” “É preciso suplantar uma biologia muito forte.” “É educar maciçamente as pessoas para que aceitem os outros..”

Meia dúzia de frases de uma conferência de imprensa que não teve honras de aberturas de noticiários, nem desenvolvimento detalhado nas fontes de informação mais badaladas do momento. As redes sociais.

Muito mais atentos estamos a imagens de extrema violência do que à devida reflexão sobre o que leva ao desprezo mais hediondo do valor mais alto da nossa existência, a vida.

Aqueles seguranças do Urban Beach, ou os dois sujeitos de Coimbra, revelaram o que há de mais preocupante na faceta humana. A incapacidade para discernir o bem do mal, o uso da violência extrema como a solução primeira, para que a minha vontade se sobreponha à do outro, numa canalhice ignóbil, cobarde, onde o mais forte, ou os mais fortes, em número e capacidade, afrontam sem qualquer respeito pela integridade alheia.

É esta irracionalidade que me afasta de fenómenos desportivos de larga escala, de aglomerações que me possam causar qualquer espécie de desconfiança, de saídas noturnas, qualquer dia de viver em paz e sossego, e poder sair de casa, só por que sim, só porque me apetece.

Voltando ao livro do ilustre António Damásio, chama-se “A Estranha Ordem das Coisas”,  justifica a intolerância à diferença com a irracionalidade dos microrganismos, microscópicos, e o modo como se organizam para sobreviverem. “As bactérias sabem que uma outra bactéria é prima, irmã ou que não faz parte da família, e quando são atacadas, se sentem que alguma não está a trabalhar viram-lhes as costas.” Ou seja, agem apenas com instinto de sobrevivência e não como seres dotados de consciência.

“O problema é ter mais emoções negativas do que positivas, não é ter emoções.”

As imagens recentes das agressões são bem elucidativas de quem age irracionalmente e que pode, neste momento em que lê estas linhas, cruzar-se consigo no McDonalds, no Urban Beach, ou na padaria onde gasta o pão do pequeno almoço de amanhã.