Para quê votar?

Como ponto prévio deste desabafo assinalo que sempre votei desde que a idade me permitiu esse direito.

Em diversos momentos ouvi recordações de anti-fascistas vítimas de torturas e perseguições da polícia política e me apercebi do quanto lhes custou garantir esta benesse.

Estou portanto no grupo de cidadãos que perdeu ontem as eleições autárquicas. Aliás, a encabeçar o grupo dos derrotados está o Presidente da República que, no dia de reflexão ou lá o que é isso, dramatizou a participação tentando empurrar à ultima da hora os “indiferentes”. Esta deveria ser a designação mais aproximada a atribuir aos mais de 4 milhões de portugueses que se borrifaram para mais um acto eleitoral.

Hoje, para não prolongar esta agonia, Marcelo Rebelo de Sousa, deveria anunciar um conjunto de medidas que visariam combater este desprezo pelos órgãos de soberania demonstrado, ao invés do protocolar encontro com os partidos que mais não serve do que ouvir, uma vez mais, derrotados e vitoriosos a comentar o desfecho do sufrágio.

Há muitos fatores a ter em conta. Desde a falta de memória do combate anti-fascista que permitiu eleições livres – fora de moda – passando pelos péssimos e mediáticos exemplos de processos judiciais envolvendo políticos, até o braço de ferro com jogos de futebol que expõem ao ridículo a leviandade com que se trata a abstenção. A inversão desta indiferença só conhecerá resultados positivos quando se for até às escolas promover o associativismo dando aos alunos um papel de relevo nos primeiros sufrágios em que se envolvem. Mas esta é apenas uma das imensas ideias que muitos têm e que o poder político tem a obrigação pública de incentivar a brevíssimo prazo.

A classe política não pode continuar, para nosso bem e garantia futura dos nossos filhos, a encolher ombros enquanto existir este clima de desconfiança em torno dos que se envolvem na causa pública. Este serviço é de prestação comunitária, com salários dignos, exercido por profissionais de mérito, e não como solução de recurso porque não se arranja “emprego” noutro lado.

A democracia, por si só, já está muito longe de ser um sistema perfeito. Se desistirmos de fomentar a causa política corremos o risco sério de continuar a eleger, como um mal menor, cidadãos condenados por corrupção, por abuso de poder, e que “revelam total ausência de consciência critica como cidadão e como detentor de cargo político.” E quando tal sucede no concelho mais qualificado do país, tudo se torna deveras preocupante. Ou então, Oeiras ganhará o titulo de caso de estudo como concelho com maior incidência de reintegração social de condenados a prisão.

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