Passei a manhã na Praça a tentar perceber porque continua a morrer tanta gente por afogamento, em Portugal.

Temos 600 kms de costa, praias fluviais, piscinas públicas e privadas em quantidade suficiente para que façamos um esforço conjunto no sentido de inverter os números trágicos. Em 4 meses, até 1 de Maio, 36 pessoas morreram, a maioria com menos de 25 anos, e até esta altura as vítimas já tinham ultrapassado as 4 dezenas.

A julgar por esta quantidade de vítimas, Portugal até dispõe de Socorros a Náufragos com uma média de sucesso bastante satisfatória dado que serão cerca de 70 milhões os utilizadores das praias portuguesas por ano. No entanto, enquanto morrer uma só pessoa o cuidado será sempre pouco.

Infelizmente, esta triste realidade depara-se com outro ângulo de análise. Em cada criança que morre, há outras duas ou três que são internadas por afogamento e algumas delas apresentam normalmente um prognóstico reservado. Nos casos em que estas sobrevivem, podem ficar com lesões neurológicas permanentes com impactos a diferentes níveis (saúde, sociais e económicos).

A direção geral de saúde já divulgou números oficiais e alerta para o facto da taxa mais elevada de afogamento se encontrar entre as crianças entre o primeiro ano de vida e os 4 anos de idade. Os principais locais de afogamento são, contrariando a opinião generalizada, as piscinas com 28%, seguidas das praias com 22%, tanques e poços com igual percentagem, nos ribeiros ou lagos também 22%, e as restantes em ambiente doméstico.

A Associação para a Promoção da Segurança Infantil, Apsi, aponta os afogamentos como a segunda causa de morte acidental nas crianças e recorda que os meses de Julho e Agosto são os mais críticos.

Em Portugal, os nadadores salvadores recebem uma instrução cada vez mais rigorosa e são sujeitos a provas com critérios muito apertados para garantir uma assistência profissional e eficiente. Discute-se o calendário da época balnear quando os números não deixam dúvidas. Quando este cuidado está em vigor, o número de acidentes desce radicalmente e as maiores tragédias ocorrem exatamente quando ninguém nas praias, rios, lagos e barragens zela pelo cuidado dos seus utilizadores.

Falta ainda falar do bom senso e da obediência aos avisos dos nadadores salvadores. No mar todo o cuidado é pouco. A ideia de que é traiçoeiro e de que não vale a pena correr riscos tem de se aplicar como qualquer outro cuidado básico para a nossa saúde. Os nadadores salvadores não têm qualquer prazer especial em contrariar a nossa vontade de nadar, e muito menos de colocar a própria vida em risco. Já muitos desistiram desta ocupação por não aguentarem a pressão psicológica após a perda de uma vida nos seus braços.

Se ouvir um conselho, um apito, uma chamada de atenção, acate que é de certeza absoluta para o seu bem.

Com as crianças todo o cuidado é pouco. O afogamento é silencioso e rápido.