A dispensa de Cristiano Ronaldo da seleção supostamente para ir conhecer os seus mais recentes filhos gémeos, supostamente repito, despertou-me uma questão ética que ainda me levanta muitas dúvidas.

A discussão sobre as barrigas de aluguer divide claramente a sociedade. Em causa o direito à paternidade e à maternidade dos que por motivos vários não podem ter filhos nem querem dividir a parentalidade. E a divisão de opiniões começa já por aqui. A quem pertence o direito de ter um filho sem partilhar a existência de um pai ou de uma mãe, quando se trata de um bebé por conceber? Os de resposta favorável argumentarão que a adopção singular ficava imediatamente inviabilizada diminuindo ainda mais o número de crianças institucionalizadas assumidas por outros, solução que já permitiu que alguns jovens fossem felizes em famílias mono parentais. E aqui também bate o ponto. Ora sabendo-se da quantidade de crianças em regime de adopção não seria mais razoável procurar encontrar uma solução dentro desta realidade ao invés de uma inseminação de origem incógnita ou de uma barriga de substituição?

Quanto à solução das apelidadas barrigas de aluguer – a expressão causa-me arrepios, confesso-vos – ainda proponho as seguintes reflexões:

– Até onde vai a ligação biológica/emocional de uma mãe com um ser em gestação durante 9 meses que radicalmente se desvincula no acto de entrega da criança ao pai ou à mãe que recorreu (alugou) a esta solução?

– Que explicação razoável, e em que idade, se dará a uma criança quando ela desvendar o processo da sua concepção? Se nalguns casos o anonimato e a descrição podem estar assegurados, logo viver uma vida inteira sem saber a verdade, noutros porém, como é o caso das figuras públicas, a crueldade infantil pode desmascarar num arrufe de crianças a meticulosamente preparada conversa entre pai/mãe e a criança?

– E, em caso afirmativo, deve o estado patrocinar esta solução para que não seja exclusivamente um recurso de gente abastada?

– Apoiado pelo estado não estaremos a correr o risco de apurar raças, etnias e afins ficando nas mãos de gente de má fé, pessimamente intencionadas como o século XX, tristemente nos demonstrou?

– Será eticamente admissível procurar uma mãe ou pai de catálogo com determinadas características como se de um menu de restaurante se tratasse?

Estes são apenas algumas dúvidas para as quais ainda não tenho ideias consolidadas e que proponho para a nossa conversa, interacção, de hoje.