As lições dos manos Sobral

Há muito que “Amar pelos dois” era o número do meu sapato. O que não fazia ideia é que as atitudes e declarações dos manos Sobral acabassem por representar tanto para a consciência colectiva.

Primeiramente há no Salvador, uma descontração e um desapego a títulos e honrarias que me agrada. Atribui ao essencial um distanciamento tal pelo supérfluo e pelo efémero que até custa a acreditar que seja possível entre os nossos pares.

Parte da tranquilidade desconcertante servirá de disfarce a um nervoso miudinho próprio de qualquer mortal. Fuga para a frente. Negligência nas respostas com fundamento coerente sobre o seu pensamento.

Não é indiferente a educação e formação recebidas. Aplaudo os pais destes manos. O que lhes foi permitido e induzido está patente na consciência das suas escolhas, atribuindo com profundidade, mesmo aparentando infantilidade e ingenuidade, justificações razoáveis para algumas escolhas.

Cantar em português, por exemplo, não foi uma imposição, foi um desígnio de honradez. Se estava a representar Portugal cantava no nosso idioma apesar de se sentirem confortáveis, Luisa e Salvador, em cantar em inglês ou em espanhol, como o fizeram maioritariamente nas respectivas carreiras.

Aliás, digo eu, esta música ganharia até cantada em Mandarim, ou Mirandês. Para que serviria o poema desta canção se não transportasse a sua composição? Já a ouviram em inglês? Em espanhol? Em dinamarquês? Experimentem… Por mim ganhava na mesma sem retirar qualquer mérito ao Salvador que aprecio em cada nota, em cada sílaba cantada, na expressão sublime do que é interpretar uma laúde dos céus.

Mas é na terra que vive o Salvador. No seu jeito que decidiu ser o seu borrifando-se para cânones e modas, despachando o título de herói para o seu ídolo Ronaldo.

Estamos em desacordo quando considera que o fogo de artifício, o bailado, e as coreografias não transmitem sentimento. Percebo a intenção da afirmação face ao contexto mas acho-a injusta, tomando a parte pelo todo. É orgânico. Diz o que pensa, sem rodeios. Gosto disso.  

O despojamento individual, sem nunca esquecer os que tornaram possível tamanha escala internacional, lembrando e aplaudindo a maior compositora portuguesa quiçá do mundo, a mana, o arranjador Luís Figueiredo, e os portugueses, banalizando a conquista com um “estava tudo comprado”, torna-o muito mais do que um vencedor para a história da música portuguesa. Ele passou a ser também um exemplo para quem acredita em valores, em ética, e respeito pelos outros.

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