Amar por todos

Desculpem me se vos desaponto mas tenho hoje que repetir o assunto que ontem vos trouxe.

O apuramento do Salvador Sobral à final do Festival da Eurovisão da canção é muito mais do que um conjunto de votos; é uma apreciação de um júri favorável à canção portuguesa.

Tendo em linha de conta apenas a improbabilidade de se ouvir a música ignorando a sua origem, logo lhe atribuindo um cunho político ao voto, ou de simpatia pela proximidade geográfica, o apuramento revela que a música resulta muito bem junto dos ouvintes. A opção pela imperceptível língua de Camões pela totalidade dos países da Europa, a vizinha Espanha não votou nesta meia final, só atribui mais mérito à composição da Luisa Sobral, e à irrepreensível interpretação do Salvador. Sem salamaleques, efeitos especiais, “mulher e homem nus” no palco, como o nosso cantor gracejou, o encantamento foi pelo essencial: o mérito.

Há dez anos assisti a um fenómeno semelhante no Festival de Helsínquia, na Finlândia. A Sérvia apresentava-se pela primeira vez a concurso após o desmembramento do Estado Sérvia/Montenegro. Também aí, eram poucos os que optavam por cantar na língua materna. Marija Sefirovic, não era um traço de mulher mas possuía uma voz e uma canção, Molitva (em português quer dizer Oração), que deixou todos de coração arrebatado e atribuíram-lhe a vitória. Ainda assim, neste caso o recente conflito na ex-Jugoslávia estava na ordem do dia, e a letra apelava à oração pelos que se dividiam sem razão racional que os levasse a tal. Recado político claro face ao que se ía sabendo do sangrento conflito.

“Amar pelos dois” é bem mais universal. É sobre o amor incondicional que devemos ao próximo, mesmo sem planos do que virá depois. O nosso coração, afinal pode amar pelos dois, ou por todos. Mesmo por aqueles que vilipendiam gratuitamente destilando veneno.

O amor e o talento dos manos Sobral fizeram o favor de o diluir.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *